Blog da Roberta Malta

21/01/2010

Andanças

Quando viajo, uma das coisas que mais gosto de fazer é andar pelas ruas. Também de entrar em mercados locais, visitar farmácias, comer em barraquinhas. E adoro ouvir conversa de turista brasileiro -- sim, estou ciente de que alguém ouve as minhas e morre de rir.

Amei quando a minha vizinha de mesa no Le Comptoir, em Paris, recebeu o prato. A senhora tinha lido o cardápio por bons 20 minutos e se surpreendeu com a chegada do pedido. Era um magret de pato e ela, inconsolável, dizia para o marido: "pela descrição eu podia jurar que era peixe".

Nessa mesma viagem, escutei outra conversa excelente de um pessoal sentado em frente ao Louvre. A moça falava: "olha, eu a-do-ro museu. Mas esse aqui... Francamente"!

Essa volta toda para dizer que eu quase não ando mais em São Paulo. Preguiça, comodidade, falta de tempo. Tudo isso ajuda. Mas preciso lembrar como é bom e me faz falta.

Outro dia, passei com o Kats e o Ale pela Augusta procurando novidades e paramos na Wondercakes. Uma fofura de loja! Não sei se ainda é tempo de bolinhos ou a moda passou. Mas a gente comeu três deliciosos: de Baileys, bicho do pé (o brigadeiro rosa de festas infantis) e limão siciliano. Nada daquela cobertura dura e opaca. Bolo molhadinho, macio, fresco, como deveriam ser todos.

 


As embalagens também são lindinhas. Pefeito para quem gosta de dar presentinhos comestíveis, como eu.

Depois disso, fiquei pensado na quantidade de coisas que devo estar perdendo por aí. Decidi caminhar mais. Nos meus últimos jantares com o Kike ele me levou para casa a pé.

 

 

Um dia eu quase fui atropelada, no outro o sapato me machucou, ontem a gente pegou chuva. De quebra, tava tudo fechado. Alguém tem o número de um taxi 24 horas, por favor?

 

Wondercakes

R. Augusta, 2542, Jd. Paulistano, São Paulo - SP

tel. 11 3063-1209

Por Roberta Malta às 16h15

18/01/2010

A boa safra de 1999

Quando comecei a fazer matérias sobre vinhos, ficava bem apreensiva. Tinha medo de escrever bobagem, de dar informação errada. Quantas vezes pedi socorro pro Luiz Horta. Eu mandava meus textos para ele dizer se estava ok. Sempre paciente o Luiz. Me dava a maior força, até me elogiava.

Aos poucos, percebi que gostava de entrevistar as pessoas do vinho. Eles, ao contrário do que muitos imaginam, são simples, generosos. Não agem como se a gente tivesse a obrigação de saber certas coisas, explicam tudo desde o princípio. Até o que, para mim, é meio óbvio eles fazem questão de ensinar nos mínimos detalhes. E eu, com o tempo, perdi a vergonha de perguntar o que não sei ou não entendo sobre o assunto.

Mas o insight mesmo só aconteceu quando conversei com o Julio López de Heredia, do Viña Tondonia. É um enólogo brilhante e disse que eu era uma das melhores repórteres com quem ele tinha falado no Brasil, porque as minhas perguntas eram diferentes (leia matéria aqui). Culpa da minha ignorância. Como não sei conversar sobre safras e lágrimas, me viro como posso. Só pode ser isso.

Depois das fotos, ele me chamou para beber um copo de vinho. Fui, claro. Era um tempranillo 1999, ano em que meu filho nasceu.

 

 

Pedi que ele me falasse sobre aquele vinho. Ele disse que era estruturado, de cores intensas, aromático, com a acidez ainda se equilibrando, mais álcool que o habitual e maior capacidade de envelhecimento. "Com o tempo ele só melhora, abre, amacia." E contou que 1999 foi um ano de muito equilíbrio na Rioja, região da Espanha em que atua. 

Entendi tudo, como nunca tinha acontecido antes. Bebi sem pressa, gota por gota.

Acabei a taça, guardei a caneta, o bloco e, antes de fechar a bolsa, olhei a foto do Tato na minha carteira. López de Heredia olhou pra mim, sorriu. E entendeu tudo.

 

  

 

Por Roberta Malta às 02h28

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Sobre o autor

Roberta Malta é jornalista de gastronomia e blogueira por vocação. Escreve nas revistas Prazeres da Mesa, Casa & Comida e algumas outras sempre sobre ingredientes, bebidas, restaurantes. Formou-se em gastronomia, estudou vinhos na ABS- SP, mas está em constante aprendizado e pretende dividir suas descobertas e dúvidas com todos que acessarem seu link.

Sobre o blog

O "Sopa de Letrinhas" é um observador bem humorado da gastronomia, com pitadas do dia-a-dia da autora. Serve também como agregador e mixer de pessoas. Tem um olhar empolgado, emocionado, frio, crítico, curioso sobre comidas, bebidas, novidades, livros, restaurantes ou um pouco de tudo. Divirta-se!

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